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Precisamos falar sobre Desigualdade de Gênero

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Eu passei minhas férias pesquisando sobre a desigualdade de gêneros na educação paquistanesa, por conta de um programa que eu estava participando nos Estados Unidos. Entre as minhas pesquisas, decidi estudar com mais profundidade sobre o conceito de igualdade de gênero, visto que esse tema atualmente suscita diversos debates nos mecanismos midiáticos e também em conferências políticas. Sendo assim, eu achei o assunto tão interessante que decidi me informar melhor acerca da situação do meu país em relação ao tópico, o que me levou a descobrir uma notícia alarmante sobre a desigualdade de gêneros no Brasil.

Primeiramente, é importante mencionar que a desigualdade entre gêneros sempre se fez presente na sociedade brasileira. Desde a chegada dos portugueses ao Brasil, a mulher era tida como um ser inferior de propriedade do homem, sendo que a ela cabiam apenas os afazeres domésticos. Esse contexto perdurou até a maior parte do século XX, com o Brasil convivendo com os princípios discriminatórios do Código Civil de 1916, o qual privilegiava o lado paterno em detrimento do materno, além de identificar o status civil da mulher casada ao de menores e incapazes – ou seja, ao casar, a mulher perdia sua capacidade civil plena, não podendo praticar uma série de atos sem o consentimento do marido.

No entanto, a partir de 1975 (Ano Internacional da Mulher), vários avanços relacionados aos direitos das mulheres na comunidade brasileira foram alcançados. O direito ao divórcio, por exemplo, passou a vigorar no país por meio da Lei n. 6.515 de 1977. Sendo assim, gradualmente várias conquistas foram sendo atingidas com a atuação de movimentos feministas no Brasil, tais como a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Nesse sentido, dentro do contexto atual, a Constituição de 1988 estabelece em seu artigo 5º a relação jurídica de igualdade de gênero, na qual declara que “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição”.

Todavia, o que foi uma vez teorizado na Constituição de 1988 nunca se concretizou na realidade. Atualmente, nós mulheres ainda precisamos enfrentar diversos obstáculos provenientes de um sistema que ainda se encontra arraigado a um passado machista e a uma sociedade patriarcal e preconceituosa. Todos os dias, milhares de brasileiras sofrem caladas as consequências de terem nascido com um sexo que por séculos foi julgado inferior. A cultura do estupro, por exemplo, que por muito tempo não foi divulgada pela mídia ou discutida em debates políticos, afetou e ainda afeta negativamente o cotidiano de diversas mulheres ao redor do Brasil e do mundo. Uma notícia que deu destaque a esse tema foi o estupro de uma jovem no Rio de Janeiro por 33 homens, sendo que o ocorrido foi filmado e compartilhado nas redes sociais.

Um outro exemplo que deixa ainda mais clara essa desigualdade de gênero que ocorre no Brasil é a média de remuneração das mulheres em relação aos homens. Assim, refletindo acerca da notícia  “Desigualdade de gênero derruba Brasil no ranking do IDHM 2016”, eu não pude deixar de notar a frase “Se comparados, o IDH dos homens fica em 0,751 e o das mulheres em 0,754 refletindo, por exemplo, um melhor desempenho educacional entre elas. Mesmo assim, os homens mantém indicadores de renda 66,2% acima”. É inaceitável uma sociedade dita democrática permitir que a discrepância de remuneração média entre homens e mulheres no Brasil seja de 66,2%. Infelizmente, muitas vezes nós conseguimos alcançar cargos de importância, mas não chegamos aos altos patamares por conta de concepções preconceituosas arraigadas à sociedade, as quais dificultam a ascensão da mulher no mercado de trabalho.

Esse problema da desigualdade de gênero afeta não só o Brasil, mas também diversos países da América Latina. O México, por exemplo, com os casos dos feminicídios em Ciudad Juárez (considerada como a capital dos feminicídios no México), demonstra estar enfrentando sérios desafios relacionados ao tema. A população conta com a atuação de organizações não-governamentais, em sua maioria formadas por mulheres, tais como Justicia para nuestras hijas e Red Mesa de Mujeres de Ciudad Juárez; essas organizações oferecem apoio aos familiares das vítimas e lutam para que essa situação tão preocupante deixe de ser cotidiana para os moradores da região. No entanto, mesmo com o trabalho feito pelas ONGs, esse desafio ainda está longe de ser solucionado de modo definitivo.

Por fim, eu não pude deixar de refletir sobre como tanto mulheres quanto homens possuem um papel fundamental no que tange ao equilíbrio da sociedade, o que teoricamente deveria fazer com que ambos fossem tratados como iguais se considerando os seus direitos e deveres para com a comunidade em que estão inseridos. No entanto, isso não é o que acontece, e nós acabamos presas em um ciclo vicioso construído em cima de bases arcaicas, por meio do qual passamos a duvidar da nossa própria capacidade e muitas vezes deixamos de realizar atividades de nosso interesse por pura insegurança. Sendo assim, nós não queremos privilégios ou direitos acima dos homens, mas sim estamos em busca de equidade entre os gêneros, e, portanto, igualdade de oportunidades para sermos ativas e podermos contribuir ao máximo para a comunidade em que estamos inseridas.

Eu sei que eu já falei sobre desigualdade de gênero aqui no blog, mas eu senti que precisava reforçar esse assunto, porque infelizmente casos em que a mulher é submetida a tratamentos desiguais pelo simples fato de ser do sexo feminino são extremamente comuns, e nós não podemos ficar caladxs quanto a isso. Nós precisamos falar sobre isso sim. Falar, debater e expor tudo aquilo que está errado para que nós consigamos construir um futuro em que a mulher consiga realmente ser tratada com a igualdade que merece.

Por fim, como eu já havia mencionado antes, caso alguém se interesse pelo artigo que eu escrevi sobre desigualdade de gênero relacionada com a educação de meninas no paquistão, é só clicar aqui para ter acesso ao documento.

Muito obrigada e até o próximo post!

5 comentários em “Precisamos falar sobre Desigualdade de Gênero

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