reflexão

Dentre todas as belezas da vida, a Morte

Nas sextas-feiras, os jovens escolhem a melhor roupa, a melhor festa e as melhores companhias. Escolhem se deleitar e fazem isso pois podem. Eu posso poder, mas algo dentro da minha alma faz com que, em uma sexta-feira (que poderia ser banhada de gigantescas felicidades) eu me encontre sentada no chão do quarto, enquanto tenho como única opção sentir a angústia invadir meu peito e trancar minhas saídas de emergência. Mas amigo, essa não é uma narrativa sobre como minha adolescência se resumiu – e ainda se resume – a uma vivência baseada em melancolia constante. Nós estamos conversando sobre renascimento e isso é um diálogo entre eu, você e minha sombra.

Quando descobri que a vida tinha questões demais e pouquíssimas respostas, resolvi convidar a Morte para tomar um café. O que era para ser uma pequena conversa no meio da tarde, se tornou uma festa emocionante que durou dias, meses, anos. E não, amigo, a Morte não se encontrou comigo para que eu apenas a escutasse. Ela queria me presentear. Então, no fim de uma festa de quase 15 anos, a Morte me deu a Sombra e foi embora, me deixando com uma chata companheira que não tinha um momento de tranquilidade.

A Sombra tinha manias ruins. Ela preferia a noite ao dia e gostava de destruir coisas. A Sombra usava sapatos e roupas extremamente desconfortáveis e fazia questão que as pessoas soubessem o quão ruim era utilizar aquelas vestimentas. A Sombra falava palavrões, dos mais variados tipos e gritava com a vizinhança. A Sombra não via beleza em canções de amor e detestava os casais apaixonados que passavam em sua frente. O comportamento dela me incomodava.

Numa de nossas andanças desordenadas, enquanto ela gritava com algum rapaz que passava na rua, resolvi parar em uma loja de espelhos. Por alguma razão, algo me disse que a Sombra deveria se ver. A Morte não tinha me contado da aversão da donzela por espelhos, mas minha intuição gritou com tanta força que eu só pude posicioná-la em frente ao maior espelho que encontrei. Então, amigo, imagine minha surpresa ao descobrir que a Sombra era eu. E ela (ou eu) ficou durante muito tempo tentando compreender o que estava acontecendo perante àquele espelho. E ela correu e se escondeu. E eu corri e me escondi.

A Morte, então, me enviou uma carta. Ela queria ver a Sombra. Meu peito foi bombardeado de melancolia e ódio próprio pois a Sombra não estava mais ali e quem eu iria mostrar para a Morte? O prazo para a ação requisitada na carta era curto. Eu não sabia o que fazer, então recorri ao pensamento rápido. Vesti as roupas e os sapatos mais desconfortáveis, enquanto minha mente apenas soltava os mais diversos palavrões e resolvi, eu mesma, ir encontrar a Morte.

Era uma tarde. A Morte escolheu um daqueles pequenos cafés interioranos que cobram caro por simularem uma experiência de cidade grande. Quando me aproximei do pequeno local, ouvi gargalhadas triunfantes que vinham dela. Ela se mantinha rindo e quanto mais eu me aproximava, mais alto e incontrolável seu riso era. Me sentei perante a senhora risonha e naquele dia, a Morte me contou seu segredo.

Dona Morte nunca tinha me dado a Sombra, ela só mostrou que aquela moça inconveniente vivia dentro do meu ser. Ela me explicou que um dia, os seres universais resolveram sentenciar a humanidade a conviver com suas sombras, mas que apenas alguns assumiriam que aquele ser existia dentro deles. E esses, caro amigo, seriam chamados de loucos. Seriam entregues às maiores dores que um humano poderia ter enquanto vivo e depois, seriam entregues a morte.

Naquela tarde eu entendi que a sombra era eu, mas a Morte é cheia de mistérios, e antes que pudesse questionar sobre qualquer coisa que ela havia me dito, a bendita desapareceu, deixando em cima da mesa apenas uma carta do Tarot de Rider-Waite, em que sua figura aparecia e, aos desavisados de plantão, eu explico a mensagem final que a Morte deixou comigo: A Morte, é o décimo terceiro arcano maior do Tarot. Quando aparece, ela simboliza uma grande transformação vindoura.

E agora, caro amigo, posso falar sobre renascimento. Quando entendi que a sombra fazia parte de quem eu era, minha vida enquanto ser terrestre mudou por completo. Não, eu não passei a amá-la durante todo o tempo, mas comecei a entender que sem os incômodos dela eu não seria o que sou. Passei até mesmo a amar as noites de sexta-feira vivenciadas dentro do meu quarto já que, no fim das contas, um dia a Morte virá por definitivo e eu espero mostrar a ela que aproveitei o presente que me foi dado. E talvez, eu ainda não goste de filmes românticos e utilize sapatos apertados. E talvez, a cada dia que passe eu entenda mais as razões pelas quais a Sombra prefere o dia do que a noite. E talvez, amigo, agora você saiba que também tem uma sombra, e nesse momento, ela está te fazendo gritar com toda a vizinhança.

2 comentários em “Dentre todas as belezas da vida, a Morte

  1. Talvez a melhor forma de tratar de forma EFETIVA nossa Sombra, seja encarar com firmeza, TODOS OS DIAS ensolarados, afinal, esta é a grande oportunidade de caminharmos com nossa sombra pelo lado de fora….rsrsrsrrsr

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